Voluntários da Pátria | texto publicado na revista Mag Rio
Publicado; 28/07/2011 Filed under: Uncategorized Leave a comment »Só o Rio de Janeiro nos une. Filosoficamente. Utopicamente.
Tupi, or not tupi ainda é a questão. Somos índios, negros, brancos, verdes, amarelos, mulatos, cor-de-rosa, dourados, vermelhos, cafuzos, mamelucos: jamais cinzentos.
Gostamos de espelhos. Selvagens, já tínhamos nosso estilo: pelados sim, mas enfeitados. Colares, cocares, maquiagens: nascemos carnavalescos. Até nossas árvores são alegóricas: como o abricó-de-macaco, a árvore que tem bolas pelo tronco que depois viram flores, flores no corpo. Escravos, éramos mais elegantes que os senhores. Negras pintadas por Debret: turbantes, cores, anéis, miçangas e aquele olhar de quem diz: “escrava na sua casa, na minha eu sou é rainha”. Vestimos parangolés. Acreditamos em deuses que sambam. Até o nosso santo padroeiro está nu.
E o mundo precisou da revista Forbes para saber que o Rio é a cidade mais feliz do mundo? “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. A alegria sempre foi a prova dos nove. Sempre esteve na comissão de frente – o que não significa que não se saiba o que é tragédia. É que só batemos palmas para a beleza e para a comédia. Está triste? Converse com um camelô na praia. Ele anda oito horas por dia debaixo do sol escaldante e poderá te dizer: “Pelo menos passo o dia vendo o mar e gente bonita, e não trancado no escritório”. Cidade conversível. O pôr-do-sol nasce para todos. Que outro lugar do mundo é aplaudido no final do dia? O que se aplaude: a beleza, a noite que chega (e com elas as festas) ou um simples desejo de aplaudir a vida?
Mesmo com esta maravilha de cenário, nem todo mundo vai ao Rio para se encontrar com a paisagem. Há quem se volte para um dos maiores cartões postais do Rio: o carioca. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, não veio ao Rio só para tirar o minério de Itabira do corpo, no mar: de costas para a praia, observa eternamente o movimento do calçadão de Copacabana. E o que Mário Quintana mais gostava no Rio era entrar em túnel. “É a única maneira de descansar da paisagem”.
Se a paisagem é a pele do Rio, o carioca é o corpo. O Rio é o samba, o carioca o enredo. Ser carioca não é somente nascer no Rio ou “puxar o s”. Todo mundo pode ser carioca. Desde que goste de uma bagunça. E da beleza. “Desordem e progresso”. A favor das migrações humanas e dos pássaros que pousaram aqui e nunca mais migraram. A favor da fuga dos estados tediosos. Sempre fomos pela diversidade. Que outra cidade daria o nome de “Vista Chinesa” à uma paisagem absolutamente tropical? Nosso Saara não é deserto: é multidão, encontro. Enquanto judeus e palestinos brigam por territórios, no Rio eles tem o seu lugar: com Alá, meu bom Alá. Se a independência do Brasil fosse proclamada aqui, não seria às margens plácidas do Ipiranga, mas em frente às ondas do Arpoador, de onde um puxador de samba gritaria: Olha a Beija-Flor aí gente! Ou quem sabe: Alalaô-ô-ô-ô!
A favor do aqui, agora. Da informalidade e da simplicidade: não queremos nada que nos pese em cima. Gente leve, tecido leve. O traje do Rio é passeio completo: mar, sol, montanha, cachoeira, floresta, céu azul, pôr-do-sol. E o que tem dentro desta estampa? O corpo do Rio: o carioca. Um corpo que caminha dançando. Pátria das havaianas e das chuteiras: antes do futebol reinar no mundo, o rei já era nosso e dizia: Love, Love, Love.
Nossa marca registrada: a do biquíni. Que também virou carioca, apesar de ter nascido na França. Filhos do sol, batizados por Iemanjá todos os Reveillons e todos os dias. Gostamos de ser quem somos. Livres. Ditadura, não: democracia do corpo. Mostre o seu como ele é: P, M ou G. Tudo vale a pena se a alma for GG.
Nação Carioca. República Democrática Carioca. A favor de quem quer compartilhar afinidades e viver na paixão, nunca na pasmaceira. A favor de vestir e sentir na pele o lugar em que se vive. Amá-lo, não sobre todas as coisas, mas com todas as suas pessoas. A favor de uma revolução carioca (que incorpore também a revolta contra as tristezas do Rio) e da carioquização do mundo, cuja bandeira seria: paz e bom humor, meu amor. Ou: Evolução, Harmonia e Conjunto. Escrita em todas as línguas, inclusive nheengatu. Voluntários da pátria: o Rio é patriota. Defendemos nosso jeito de ser. A favor da universalização de uma nação sempre pronta para amar e cair no samba às nove da manhã em Santa Tereza no carnaval ou a tomar um chope no botequim da esquina, por mais que existam compromissos ou falte dinheiro. A favor da beleza em todas as idades. No futuro todas as garotas serão de Ipanema, ainda que com 70 anos. Pela insurreição através do sorriso. (Não passa, mas alivia). A transformação do tabu em totem.
Contra a cordinha vip nos blocos de rua. Contra o crachá: a favor do escracho. Ninguém precisa ser rei ou presidente para desfilar em carro aberto: basta sambar. A nossa calçada da fama é para pôr os pés, não as mãos. E deve ser sempre mais famosa do que os pés que desfilam por ela.
Eram os deuses cariocas? Marrentos, a modéstia nunca foi o forte do Rio. O carioca é superlativo e não esconde nem se envergonha de suas qualidades. O Monte Olimpo também pode ser aqui: será que ele está no Pão de Açúcar? Cidade politeama, templo de todos os deuses. E demônios.
Os olhos correm soltos pelo Rio. A favor do olhar livre. De fazer festa para ter assunto no dia seguinte. Do voyerismo sem câmeras, binóculos, lunetas. Papparazzis, só da natureza. O olhar discreto debaixo do guarda-sol e indiscreto no calçadão. O Rio já foi corte e continua sabendo fazê-la. Eu, quando acordava mal humorada ia à padaria ao lado da minha casa só para ouvir do atendente: “bom dia, princesa do Horto!” Pro dia nascer feliz.
Da adversidade vivemos. Samba é improviso, viver é improviso. Contra a caretice. A favor dos que se movem. Dos que sofrem dançando. Dos que (até) aceitam o pão que o diabo amassou, mas colocam um molhinho dentro. Contra as neuroses urbanas. Contra o país do futuro: somos o país do momento. E, contra o baixo astral, o Baixo Gávea ou o Baixo Leblon. Se há uma pedra no meio do caminho, voar dela. Na pedra da Gávea a face de um ancião: o Cristo não é nosso único protetor, temos também um duende olhando por nós.
“Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud”. Contra a banalização do cotidiano. A favor de uma nação carioca, anárquica, caótica, mas em constante evolução. (“Evolução: quesito na escola de samba onde e julga a velocidade e a forma como os componentes desfilam: se dançam animados, se passam compactos, próximos uns aos outros, de modo que quem estiver olhando de cima tenha a impressão de que a escola seja um corpo único. Não precisa saber sambar, precisa se movimentar”).
Por uma pátria que evolua como numa escola de samba: num corpo único e plural, colorido, em movimento constante. Rio de Janeiro: e pur se muove. A persistência da convicção em ser feliz, mesmo quando nos obrigam a dizer o contrário.
Christiane Tassis é mineira, mas também pode ser carioca.
